Ressuscitação neonatal – A criança gelada

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Ressuscitação neonatal – A criança gelada

 

Fomos acionados para assistir um trabalho de parto em uma madrugada fria

 Era uma madrugada fria, dessas que costumam congelar a gente nos meses de julho, estávamos de plantão no SAMU quando tocou o telefone e do outro lado da linha uma solicitante pediu ajuda dizendo que uma criança acabava de nascer. A solicitante era mãe da nossa paciente e disse que estava surpresa pois a filha havia conseguido esconder a gravidez até o momento em questão, disse também que nossa paciente começou a passar mal, sentou-se no vaso sanitário e deu a luz.

 

O Bebê estava dentro do vaso sanitário

 Deslocamos nossa equipe imediatamente até a residência da solicitante e quando chegamos encontramos o recém nascido quase totalmente submerso na água gelada do vaso sanitário, prontamente retiramos a criança daquele local, quase não respirava, estava gelada, muito gelada, exatamente igual a uma peça de carne comprada no supermercado, seu corpo estava cianótico, a freqüência cardíaca estava menor que 60 batimentos por minuto e a placenta ainda estava ligada ao bebê pelo cordão umbilical.

Abrimos nosso kit de primeiros socorros e imediatamente sequei a criança com toalhas limpas e secas, descartei as toalhas usadas e com outras novas repeti o procedimento, enquanto secava o dorso estimulava para que o bebê chorasse, mas ele não chorou, continuava muito gelado, inerte e roxo.

 

Iniciamos procedimentos de RCP

 Cortamos o cordão umbilical e iniciamos os procedimentos de ressuscitação cárdio-pulmonar, 1 ventilação para cada 3 compressões torácicas, mas a criança ainda estava muito gelada.

Uma das causas de parada cardíaca é a hipotermia, certamente aquela madrugada estava com temperatura abaixo dos 10ºC, demoramos aproximadamente 10 minutos para chegar, mas o parto havia ocorrido 20 minutos antes da nossa chegada, a água do vaso sanitário ajudou a tornar aquele corpinho hipotérmico. Não consegui entender o motivo daquelas pessoas não terem retirado o bebê de dentro da água até a nossa chegada, aquecer aquele recém nascido era prioridade, entretanto não dispúnhamos de recursos como berço aquecido ou outro dispositivo para nos auxiliar, rotineiramente utilizamos a temperatura do corpo da mãe para garantir a temperatura das crianças que ajudamos a nascer, entretanto estávamos em uma emergência causada pela hipotermia e a temperatura do corpo da mãe não seria suficiente para aquecer o RN a tempo e com segurança.

 

O secador de cabelo salvou a vida da criança

 Pedi um secador de cabelo! Imediatamente um guarda roupas foi aberto e um secador de cabelos apareceu como um santo remédio, continuamos a ressuscitação cardíaca enquanto uma das pessoas da família direcionava o fluxo de ar quente do secador em direção a criança. Conforme os minutos se passavam a criança tornava-se cada vez mais quente e rosada, até que em um determinado momento os bracinhos e perninhas começara a se movimentar, chequei a frequência cardíaca e consegui verificar mais que 60 batimentos por minuto, mantive apenas a ventilação com dispositivo manual e o “secador de cabelos”, mais alguns minutos notei que a freqüência cardíaca já era superior a 100 batimentos por minuto, mais alguns instantes a criança começou a chorar…

Lembrei imediatamente uma frase dita por um colega, paramédico norte americano: “Crianças que choram são boas crianças”!!!